fagulhagulha

janeiro 4th, 2012 § Deixe um comentário

 

enquanto a chama comia
contorcia borrachas e
corpos creptavam no chão
que não há

vias fechadas pro mundo
correndo por ares findados
águas que escorrem no vão
terminado em vapor liquifeito

surpresa e acasos em vidas
de tempos de antes
de mim. floriano-getúlio
acabando no gosto cinzento

sabor de pó
perguntando a si mesmo
o porquê do fim
no retorno.

(un miroir
noir
la flamme)

[Este poema encontra-se na Edição de Dezembro da Um Conto - Revista de Literatura, que você pode baixar clicando aqui]

sem você

dezembro 22nd, 2011 § 4 Comentários

 

assovio vira vento
pôr do sol se põe e ponto
livro lido limba e loda
arte areia agulha e ata.

 

mesa de centro

dezembro 11th, 2011 § Deixe um comentário

anjos mortos,
de mármore
olhando pra cima

desacreditados

no próprio
céu

Porque o instante, existe.

outubro 20th, 2011 § 3 Comentários

Das horas que esperarei até o fim. Das horas que passarei junto a você, minuto a minuto, contados, e não vividos. Nunca vividos. Das horas que fitarei da janela sua silhueta no jardim de rosas. Mortas. Mortas como eu. Mortas vivas até a eternidade que é já a vida que não cabe, não cabe mais em mim. Não cabe sequer naquela foto de nós dois sentados no jardim, a sorrir, a fingir, a esperar. Esses milésimos que se perdem da vida ao retratá-la na pausa de um retrato. Será, mesmo, tempo perdido? Ela, a vida, sim, ela mesma, é pausa. Espera. Suspensão. Pés equilibrados no parapeito da realidade. Esses milhares de milésimos que se perdem da vida ao retratá-la em instantes narrativos. Será, mesmo, tempo perdido? A narração da vida não seria, pois, a criação da mesma? Se não a criação, ao menos a organização do tempo. Porque dele, dele não se deve esperar clemência ou paciência. Ele arrasta. Ele é rio. Correnteza. Correnteza levando folhagens de árvores que ainda não nasceram. Até o fim. O fim que não se sabe da existência pois se desconhece os inícios. Até o instante. O instante que perdura, espera, flutua, existe.

O tempo dos seus olhos

setembro 4th, 2011 § 1 Comentário

O que há dentro desses noventa anos que ainda capinam o mato, fresco, a secar sob o sol insistente? O que esses anos viram? O que irão contar aos presentes, inventando passados, preparando futuros? E esse coração. Esse coração de noventa anos, quantas vezes já parou? Saiba que o tempo dele não é contado pelas batidas, mas pelo intervalo entre elas. Saiba que a vida acontece ali, no entremeio, no intermédio do tempo. A vida acontece ali, suspensa, tensionada, prestes a pular, de assalto – e para sempre – ao eterno próximo segundo. E esses olhos, quanto tempo têm? Saiba que a idade deles é medida pelo tempo que ficam abertos. Não pra fora, não. Mas pra dentro. Esses pés. O tempo dos seus pés é contado pelo intervalo do passo seguinte: duvidoso, hesitante. Pois à frente, à frente deles, o mundo. O mundo que, mesmo curvo, existe.

à vô

é preciso

agosto 23rd, 2011 § 2 Comentários


ouvir: o deslizar das nuvens
sonhar: fora da cama
dar fim: ao carnaval

sentir: o cheiro das casas alheias
conferir: até sete o número de anões de jardim

reparar: que as estrelas se multiplicam por timidez
perceber: que a única pretensão do fogo é subir

ouvir: as gotas de chuva baterem palmas umas pras outras
haver: vagalumes cegos iluminando de acasos a escuridão

escutar: o silêncio dos sonhos ao caírem no chão
arrancar: com leveza dedicatórias de livros
não ser: um túmulo anônimo

navegar: até desconhecer-se

O Desafio

julho 14th, 2011 § 2 Comentários

Neste desafio (literário, eu diria, mas essa conceituação deixo à vocês, leitores imaginários) Otávio Campos [@otavioabacate] e eu, Danilo Lovisi, decidimos propôr que escrevêssemos algo com a temática e o estilo um do outro. Seus escritos costumam carregar uma densidade emocional que causa certo incômodo, não negativo, mas um incômodo que nos movimenta para algum lugar inusitado, e retirará-lo da memória se torna algo difícil. Há também um tom confessional que é capaz de (e)levar os sentimentos humanos a um patamar vivencial e literário fora do lugar-comum.

Ele costuma postar seus escritos aqui e aqui, sendo no primeiro link, o blog “Pois é”, o lugar onde a maioria dos textos se encontram e o espaço no qual estas características acima se fazem mais presentes. E o segundo link, o blog “Macondo”, onde você pode encontrar a parte dele do desafio e conhecer mais de seus belos escritos. Sem mais delongas, eis o resultado:

Te espero

- Te digo

- I Speak Because I Can

Te espero

julho 14th, 2011 § Deixe um comentário

(…)

- Só tô esperando.
- Esperando, claro. Você só espera e nunca faz nada! Esperando o que, afinal?
- Uma traição. Uma traição pra poder provar que nosso amor ainda existe. Existe ao menos no orgulho ferido. Ao menos nos pensamentos infinitamente cíclicos que surgirão nos dias seguintes. Uma traição pra provar minha própria existência. Porque sentir… Sentir eu já não sinto nada há muito tempo, nem distraída. Nada se mexe, tudo se mantém. É, eu sei que é imaturidade. Sei que não é indo pra outro lugar que isso vai melhorar, porque indo pra lá não há como ir pra longe de mim, e o problema está aqui, sempre, no reflexo, e é ele que tenho que limpar. Tô esperando uma traição que me recolha à insignicância que sou, que me aponte pr’onde ir: pra baixo, e adiante. Descer. Descer no que só existe quando quero. Descer pra dentro do que não sou. Descer e perceber que você me falou que isso aconteceria e ignorei. Ignorei, sim, masoquista que sou, pra poder fingir surpresa quando acontecesse. Pra poder doer o sufiente pr’eu morrer e voltar outra, de olhar livre, amor leve. Leve a ponto de te acompanhar com o motivo da dor. Livre pra ter o que perdoar. Uma traição. Uma traição pra poder perdoar. É isso que espero.

I Speak Because I Can

julho 14th, 2011 § Deixe um comentário

Eu falo porque posso. Eu falo porque preciso. Eu falo porque devo falar tudo o que tá aqui prestes a explodir feito virada de ano fogos de artifício azuis verdes amarelos hipócritas taças de champanhe que nem sabem escrever o próprio nome sem procurar na identidade de papel verde que vale três e cinquenta na sede de cadastros de existência que precisam ser atestadas pra que eles se acalmem e achem que são dignos de registro em papel porque na vida não veem prova da vida porque só acredito vendo disse o homem na tv comprada em doze mil parcelas que não tem e não terão porque são tão pobres que só tem dinheiro que acaba todo mês e choram pela blusa verde que não deu pra comprar porque acabou o limite do cartão de mentiras que escreveram quando a tia morreu porque era chata e ainda bem que morreu com aquela casa velha que vai ficar pra quem porque ele não merece ele não cuidava dela direito porque vivia na casa daquela outra que não vale nada também porque não é digna e não trabalha em coisa de gente de respeito que é trabalhadora e honesta que não fala pro cobrador do ônibus que o troco tá errado porque sou esperto e o mundo é dos espertos até que só sobrem os espertos enterrando uns aos outros em suas espertesas anônimas e inúteis como a lápide do túmulo esquecido porque assim é a vida o ciclo sem fim que nos levará à

Te digo

julho 14th, 2011 § Deixe um comentário

Não é fechando os olhos que isso vai melhorar, querida. É abrindo-os até tornar o ato de fechá-los muito trabalhoso. Traga para sua realidade o máximo de coisas que irão me retirar dela. Retire dos seus sonhos tudo o que se refere a mim, para que quando, descuidadosamente, seus olhos se fecharem, eu não esteja mais

………………………………………………………………………………………………………lá.

  • Danilo Lovisi

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