Descentral

maio 6th, 2012 § 1 Comentário

As montanhas fecham os horizontes com suas mãos secas, petrificadas. Só se vê o céu olhando pra cima. Os que lá moram acomodam-se por não terem que pensar em eternidades, porque tudo se finaliza em terra, pedra, sempre. O vento, que não há, inexiste num calor onipresente até mesmo na morte, e depois: Augusto versa do túmulo abafado: a mão que escreve é a mesma que abana. Abandonar? Não. Não há caminho. Ou melhor, há: subir, ou descer. E o descentral: o fim em si, por si. O mais escolhido, aliás. Por isso, lá, as árvores não levantam os braços – decepados e oprimidos pelo peso do céu – lá, elas dão-se as mãos.

   [Leopoldina, 11']

trajetória

maio 6th, 2012 § Deixe um comentário

da mariposa e outros insetos voadores e apaixonados por luzes já se transcreveu todas as trajetórias possíveis, de todos os ângulos, de todos os países, em todas as línguas. mas das trajetórias humanas, não. somos o próprio objeto descrito, portanto não há, não há imparcialidade – e nem como alcançá-la. que as mariposas escrevam sobre nós! ou as baratas, que poderão levar nosso legado à eternidade. a eternidade delas, que terminará, como o dia seguinte. e o seguinte.

endomingado

maio 6th, 2012 § Deixe um comentário

(…) Passou por mim como um avião sob o céu de uma praia francesa, carregando uma faixa publicitária num dia endomingado – me dando aquela sensação de continuar observando o que já se sabe apenas pelo prazer de vê-lo sumir, sumir no tempo.

Empreendimento

abril 5th, 2012 § Deixe um comentário

JC Marcas

a cadência do bolero de ravel

março 1st, 2012 § Deixe um comentário

Espiava – olhava escondido, espremido numa greta da janela, o sol nascer; não queria atrapalhar. Tinha certeza que ouvia, ao fundo (da vida?) a cadência do bolero de ravel. Um gesto além e tudo se esvaía  em silêncio; cores oleosas, nominadas.

urbe I

março 1st, 2012 § Deixe um comentário

 

caminhando
pisando
sob declarações de amor
no asfalto

 

[Publicado primeiramente aqui]

fagulhagulha

janeiro 4th, 2012 § Deixe um comentário

 

enquanto a chama comia
contorcia borrachas e
corpos creptavam no chão
que não há

vias fechadas pro mundo
correndo por ares findados
águas que escorrem no vão
terminado em vapor liquifeito

surpresa e acasos em vidas
de tempos de antes
de mim. floriano-getúlio
acabando no gosto cinzento

sabor de pó
perguntando a si mesmo
o porquê do fim
no retorno.

(un miroir
noir
la flamme)

[Este poema encontra-se na Edição de Dezembro da Um Conto - Revista de Literatura, que você pode baixar clicando aqui]

sem você

dezembro 22nd, 2011 § 4 Comentários

 

assovio vira vento
pôr do sol se põe e ponto
livro lido limba e loda
arte areia agulha e ata.

 

mesa de centro

dezembro 11th, 2011 § Deixe um comentário

anjos mortos,
de mármore
olhando pra cima

desacreditados

no próprio
céu

Porque o instante, existe.

outubro 20th, 2011 § 3 Comentários

Das horas que esperarei até o fim. Das horas que passarei junto a você, minuto a minuto, contados, e não vividos. Nunca vividos. Das horas que fitarei da janela sua silhueta no jardim de rosas. Mortas. Mortas como eu. Mortas vivas até a eternidade que é já a vida que não cabe, não cabe mais em mim. Não cabe sequer naquela foto de nós dois sentados no jardim, a sorrir, a fingir, a esperar. Esses milésimos que se perdem da vida ao retratá-la na pausa de um retrato. Será, mesmo, tempo perdido? Ela, a vida, sim, ela mesma, é pausa. Espera. Suspensão. Pés equilibrados no parapeito da realidade. Esses milhares de milésimos que se perdem da vida ao retratá-la em instantes narrativos. Será, mesmo, tempo perdido? A narração da vida não seria, pois, a criação da mesma? Se não a criação, ao menos a organização do tempo. Porque dele, dele não se deve esperar clemência ou paciência. Ele arrasta. Ele é rio. Correnteza. Correnteza levando folhagens de árvores que ainda não nasceram. Até o fim. O fim que não se sabe da existência pois se desconhece os inícios. Até o instante. O instante que perdura, espera, flutua, existe.

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