O tempo dos seus olhos

setembro 4th, 2011 § 1 Comentário

O que há dentro desses noventa anos que ainda capinam o mato, fresco, a secar sob o sol insistente? O que esses anos viram? O que irão contar aos presentes, inventando passados, preparando futuros? E esse coração. Esse coração de noventa anos, quantas vezes já parou? Saiba que o tempo dele não é contado pelas batidas, mas pelo intervalo entre elas. Saiba que a vida acontece ali, no entremeio, no intermédio do tempo. A vida acontece ali, suspensa, tensionada, prestes a pular, de assalto – e para sempre – ao eterno próximo segundo. E esses olhos, quanto tempo têm? Saiba que a idade deles é medida pelo tempo que ficam abertos. Não pra fora, não. Mas pra dentro. Esses pés. O tempo dos seus pés é contado pelo intervalo do passo seguinte: duvidoso, hesitante. Pois à frente, à frente deles, o mundo. O mundo que, mesmo curvo, existe.

à vô

é preciso

agosto 23rd, 2011 § 2 Comentários


ouvir: o deslizar das nuvens
sonhar: fora da cama
dar fim: ao carnaval

sentir: o cheiro das casas alheias
conferir: até sete o número de anões de jardim

reparar: que as estrelas se multiplicam por timidez
perceber: que a única pretensão do fogo é subir

ouvir: as gotas de chuva baterem palmas umas pras outras
haver: vagalumes cegos iluminando de acasos a escuridão

escutar: o silêncio dos sonhos ao caírem no chão
arrancar: com leveza dedicatórias de livros
não ser: um túmulo anônimo

navegar: até desconhecer-se

O Desafio

julho 14th, 2011 § 2 Comentários

Neste desafio (literário, eu diria, mas essa conceituação deixo à vocês, leitores imaginários) Otávio Campos [@otavioabacate] e eu, Danilo Lovisi, decidimos propôr que escrevêssemos algo com a temática e o estilo um do outro. Seus escritos costumam carregar uma densidade emocional que causa certo incômodo, não negativo, mas um incômodo que nos movimenta para algum lugar inusitado, e retirará-lo da memória se torna algo difícil. Há também um tom confessional que é capaz de (e)levar os sentimentos humanos a um patamar vivencial e literário fora do lugar-comum.

Ele costuma postar seus escritos aqui e aqui, sendo no primeiro link, o blog “Pois é”, o lugar onde a maioria dos textos se encontram e o espaço no qual estas características acima se fazem mais presentes. E o segundo link, o blog “Macondo”, onde você pode encontrar a parte dele do desafio e conhecer mais de seus belos escritos. Sem mais delongas, eis o resultado:

Te espero

- Te digo

- I Speak Because I Can

Te espero

julho 14th, 2011 § Deixe um comentário

(…)

- Só tô esperando.
- Esperando, claro. Você só espera e nunca faz nada! Esperando o que, afinal?
- Uma traição. Uma traição pra poder provar que nosso amor ainda existe. Existe ao menos no orgulho ferido. Ao menos nos pensamentos infinitamente cíclicos que surgirão nos dias seguintes. Uma traição pra provar minha própria existência. Porque sentir… Sentir eu já não sinto nada há muito tempo, nem distraída. Nada se mexe, tudo se mantém. É, eu sei que é imaturidade. Sei que não é indo pra outro lugar que isso vai melhorar, porque indo pra lá não há como ir pra longe de mim, e o problema está aqui, sempre, no reflexo, e é ele que tenho que limpar. Tô esperando uma traição que me recolha à insignicância que sou, que me aponte pr’onde ir: pra baixo, e adiante. Descer. Descer no que só existe quando quero. Descer pra dentro do que não sou. Descer e perceber que você me falou que isso aconteceria e ignorei. Ignorei, sim, masoquista que sou, pra poder fingir surpresa quando acontecesse. Pra poder doer o sufiente pr’eu morrer e voltar outra, de olhar livre, amor leve. Leve a ponto de te acompanhar com o motivo da dor. Livre pra ter o que perdoar. Uma traição. Uma traição pra poder perdoar. É isso que espero.

I Speak Because I Can

julho 14th, 2011 § Deixe um comentário

Eu falo porque posso. Eu falo porque preciso. Eu falo porque devo falar tudo o que tá aqui prestes a explodir feito virada de ano fogos de artifício azuis verdes amarelos hipócritas taças de champanhe que nem sabem escrever o próprio nome sem procurar na identidade de papel verde que vale três e cinquenta na sede de cadastros de existência que precisam ser atestadas pra que eles se acalmem e achem que são dignos de registro em papel porque na vida não veem prova da vida porque só acredito vendo disse o homem na tv comprada em doze mil parcelas que não tem e não terão porque são tão pobres que só tem dinheiro que acaba todo mês e choram pela blusa verde que não deu pra comprar porque acabou o limite do cartão de mentiras que escreveram quando a tia morreu porque era chata e ainda bem que morreu com aquela casa velha que vai ficar pra quem porque ele não merece ele não cuidava dela direito porque vivia na casa daquela outra que não vale nada também porque não é digna e não trabalha em coisa de gente de respeito que é trabalhadora e honesta que não fala pro cobrador do ônibus que o troco tá errado porque sou esperto e o mundo é dos espertos até que só sobrem os espertos enterrando uns aos outros em suas espertesas anônimas e inúteis como a lápide do túmulo esquecido porque assim é a vida o ciclo sem fim que nos levará à

Te digo

julho 14th, 2011 § Deixe um comentário

Não é fechando os olhos que isso vai melhorar, querida. É abrindo-os até tornar o ato de fechá-los muito trabalhoso. Traga para sua realidade o máximo de coisas que irão me retirar dela. Retire dos seus sonhos tudo o que se refere a mim, para que quando, descuidadosamente, seus olhos se fecharem, eu não esteja mais

………………………………………………………………………………………………………lá.

Quando Silêncio

julho 9th, 2011 § Deixe um comentário

Deslizavam pelas quinas de silêncio do mundo. Infiltravam-se nas mentes alheias naqueles milésimos sem pensamento. Escondiam-se de qualquer tipo de som e, quando não encontravam um silencioso abrigo a tempo, jogavam-se em cima de qualquer expressão audiofônica eminente. Por isso as canções na vitrola começam às vezes distorcidas, por isso nossos espirros saem com sons estranhos, ou a voz muda de tom de repente. São elas os lampejos que surgem no improviso das canções; abandonadas em alguma parte do mundo, viajando a trepidar superfícies aquáticas e estremecer folhas secas a ponto de fazê-las cair e… Voar. São elas, melodias abandonadas indisperdiçando-se.

só há maria

julho 5th, 2011 § Deixe um comentário

 

só maria maria
só maria brevidade
so mª

só: humano.

junho 3rd, 2011 § 1 Comentário

E na floresta, uma flor nasceu próxima à margem esquerda do rio, ao lado da pedra amarelada, encostada no tronco d’árvore invergada pelo vento. A flor não floresceu para ser vista por você, humano. Ela apenas floresceu. Apenas.

e

A luz de uma estrela não termina no reflexo dos nossos olhos. Ela continua para trás e além de nós, para sempre, até chegar no primeiro ponto de interrogação expresso pelo universo,

que continua

copacabânico

maio 14th, 2011 § 2 Comentários

h’orizonte
que antes interminava
entre água e ar,
agora
entre fios e luzes
flutuantes
se compreende:

“Constante não-aceitação da eternidade.”

[Rio, Janeiro 11']
  • Danilo Lovisi

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